Memória de Leon Tolstoi. Espetáculo Amor e Ódio em Sonata

Seria praticamente impossível descrever em uma página os símbolos e as dimensões antropológicas, sociais e artísticas presentes nos temas da peça “Amor e Ódio em Sonata”, que faz um recorte sobre a vida do escritor russo Leon Tolstoi. Por isso, esse espetáculo faz parte daqueles que começam no palco e continuam nos espaços da vida. Alias, essa é uma característica fundamental, que um dia deverá pesquisada para compreender os fios condutores das montagens do diretor Leonardo Talarico. A forma como Talarico constrói a inteireza do espetáculo oferece elementos teóricos e práticos para uma discussão consistente sobre a transição entre Modernidade e Pós-Modernidade, não apenas na arte e no teatro, mas sobretudo, nas outras ciências no que se refere à construção de uma teoria conhecimento condizente com as demandas do novo milênio.

Tenho defendido em palestras que o diálogo sobre o espetáculo é um respeito ao trabalho do diretor, das atrizes e de todos envolvidos no processo de construção. Dessa forma, é possível descrever o papel do teatro na construção das sociedades.  A forma acelerada como degustamos tudo atualmente faz com que não percebamos detalhes que demandaram inteligência, sensibilidade e anos de trabalho daqueles que prepararam um espetáculo para marcar a vida do público, como foi Amor e Ódio em Sonata.

O diálogo pós-evento no projeto “Não Morra Sem Ir ao Teatro…” é uma forma de aprofundar valores do teatro e desse espetáculo que estão na vida. Amor, ódio, família, perdas, traições, questões de gênero, disputas, generosidade e, praticamente, todos os dilemas e paradoxos que sustentam o ser humano estão no espetáculo Amor e Ódio em Sonata.  Essa característica revela a grandeza do escritor russo Leon Tolstoi e a peculiaridade do diretor em conseguir condensar todos esses paradoxos humanos num único espetáculo sem sujar e poluir a narrativa. Fato que também exige cuidado e sensibilidade das atrizes, conforme se vê no palco.

O espetáculo é uma excelente obra para resgatar uma das dimensões importantes para formação de liderança e para o desenvolvimento do ser humano, a saber, o Autoconhecimento Inteiro e o contato com as contradições e paradoxos humanos.

É impossível participar desse espetáculo e não se posicionar diante de suas provocações que remontam as grandes perguntas da história da humanidade que agitaram a alma de importantes escritores, tais como, Mestre Eckhart, Albert Camus, Heirich Heine, Agostinho de Hipona, Simone Weil, João Guimarães Rosa, José Saramago e outros.

O público e os amantes da arte feita com profundidade, horizontalidade e sensibilidade agradecem pela existência desse espetáculo e a democratização no Brasil de um escritor reconhecido na literatura mundial.

Após ter passado um período na Europa, destaco que não é tão comum ver companhias brasileiras serem aplaudidas, tendo o trabalho reconhecido num país, onde o teatro tem tradição de séculos. Foi dessa forma que, na Rússia, os membros da família de Tolstoi receberam com júbilo a apresentação, com tradução simultânea, do espetáculo “Amor e Ódio em Sonata”, no dia 4 de julho, na residência onde Tolstoi viveu, Yasnaya Polyana, e no dia 11 de julho, no Centro Teatral Meyerhold, em Moscou, com as atrizes Amandha Monteiro e Juliana Weinem, direção de Leonardo Talarico.

Em função de um justo trabalho de memória e reconhecimento público da contribuição dessa peça, após a última apresentação desse espetáculo na Casa Quintal no dia 10 de setembro de 2017, um grupo formado por um professor universitário, artistas, atores, atrizes, jornalistas, estudantes e diretores sugeriram a criação do “Dia Internacional do Espetáculo Amor e Ódio em Sonata na Rússia pelo Brasil”.

O objetivo é fazer da data de apresentação do espetáculo na Rússia um dia histórico no Brasil e em outros lugares. Foi proposto que essa data se torne um marco de memória e sirva para aprofundar a obra de Leon Tolstoi no Brasil e no mundo. Foi sugerido que, nesse dia, sejam apresentadas as peculiaridades da metodologia do diretor Leonardo Talarico presentes no espetáculo  e que se organizem diálogos sobre o papel do teatro na sociedade, sua contribuição para o conhecimento transdisciplinar na Pós-Modernidade e para construção de Fios Sustentáveis, frente aos desafios ecossociais do século XXI.

Dell Delambre, Dr. (WTS Coach e Consultor em Sustentabilidade)

Bibliografia para consulta

BAUMAN, Zygmunt. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

BAUDRILLARD, Jean. Tela total/mito: ironias da era do virtual e da imagem. Porto Alegre: Sulina, 1997.

DEJOURS, Christophe. A Banalização da Injustiça Social. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999.

DELAMBRE, Dell. Sustentabilidade In-Sustentavel. Curitiba: MRV, 2013.

DELAMBRE, Dell. Fios Sustentáveis (FioS)-Teoria como Filosofia de Vida. Cf. https://golparaoplaneta.wordpress.com/2015/10/23/fios-sustentaveis-fios-teoria-como-filosofia-de-vida/

RABELLO, Belkiss J. Correspondência entre L.N. Tolstói e M.K. Gandhi. Cf.  https://www.revistas.usp.br/clt/article/viewFile/49448/53527

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