NOVO NORMAL OU NOVO EM TENSÃO?

Exatamente em julho de 2019, eu embarcava para Alemanha com o objetivo de apresentar a Teoria da Tensão no Simpósio Internacional de Geopolítica do Conhecimento na Universidade de Münster. Eu estava fechando um grande ciclo em minha vida e prestes a abrir outro.

Eu já tinha passado um período fazendo pesquisas na Alemanha, na universidade de Tübingen, no primeiro doutorado que eu fazia em Teologia na PUC-Rio. Depois, eu voltei para fazer um curso de línguas em Berlim e também para assistir uma palestra sobre Mudanças Climáticas com o professor Dr. Stefan Rahmstorf. Era uma pesquisa que eu fazia sobre sustentabilidade. Mais tarde, eu escreveria o livro Sustentabilidade In-Sustentável. Eu já mostrava ali a tensão entre dois modelos de desenvolvimento que disputavam espaços no mundo.

Mas a experiência do ano passado na universidade de Münster foi mais um divisor águas em minha vida profissional como pesquisador e empresário. Eu fui apresentar o resultado dos diversos setores onde aplico a Teoria da Tensão com a nossa metodologia de Coaching. A Teoria foi bem desenvolvida no meu segundo doutorado feito em Portugal na Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração no Departamento de Museologia.

Foi muito emocionante ouvir os diálogos e debates que fiz com alguns alunos na Alemanha sobre como a Teoria da Tensão poderia ser um suporte educacional para mediar as tensões de geração em função do nascimento do mundo novo dentro do mundo antigo, seria o Novo em Tensão. Essa Experiência marcou a abertura de um grande ciclo em minha caminhada para dar minha contribuição no cenário nacional e internacional. É bem verdade que, em 2019, um pequeno resumo da Teoria da Tensão já tinha sido publicada numa obra nos Estados Unidos para discutir a diversidade e a unidade em solo americano.

Atualmente tenho feito um trabalho forte para acompanhar a dimensão de desenvolvimento pessoal, a partir da Teoria da Tensão. Não é por acaso esse movimento que tenho feito para discutir a formação de lideranças dentro do desenvolvimento pessoal: pessoas precisam estar na frente das coisas.

A experiência na Universidade de Münster na Alemanha abriu um novo capitulo porque eu percebi que estávamos diante mesmo do esgotamento de um projeto de sociedade. A experiência me revelou milhares de oportunidades. Por isso, eu tomei a experiência ali como aqueles dias no quais você marca com um símbolo de vitória. Eu me lembro como se fosse hoje: eu lá na universidade, meio nervoso na apresentação, mas explicando a Grande Tensão entre o nascimento do mundo novo dentro do mundo antigo. Eu mostrava que o último dado que esticava a Tensão era a inteligência artificial junto com as tecnologias e a dimensão exponencial desse tempo. Eu fiz compilado de situações e mostrei que todas as áreas da sociedade seriam impactadas de forma drástica. Um caminho sem volta.

Após quase oito meses após a apresentação, fomos quase todos obrigados a fazer uma Parada Tensa e o Mundo Novo engoliu de forma exponencial o Mundo Velho obrigando, em várias partes do mundo e em menos de uma semana, há fazer adaptações que levávamos mais de 10 anos para implementar numa empresa. Que tensão! Uma grande parte da população em casa, sendo obrigado a fazer quase tudo a partir da casa invisível chamada Internet. De um lado, empresas morrendo e, do outro, aquelas que já tinham implementado projetos que mantinham a tensão entre o digital e o presencial viam suas demandas aumentarem em mais de 500% por cento.

Aos poucos, o novo, em tensão com o antigo, começou a dar o seu contorno de força para construção da sociedade. Antes o mundo antigo resistia e ditava em muitos contextos as regras. Não há aqui um juízo de valor, apenas a descrição da tensão exponencial. Rapidamente, o novo assume seu lugar em tensão dentro do antigo. Ainda isolados na casa invisível, a vida começava a receber o contorno do Novo Tenso, ele chegou para ficar. Os casamentos eram feitos dentro da tensão: noivos num lugar, família em outro; os aniversários passaram a ser comemorados no novo em tensão. Muitas empresas morriam, outras nasciam. De forma exponencial, o que há algumas semanas era essencial se tornava secundário e aquilo que era secundário virava mais do que essencial, era a única condição de sobrevivência dentro da grande tensão. Até a dimensão existencial era atingida pela tensão do novo, a morte presente sem direito ao luto e à despedida. Uma tremenda contradição humana, para viver é preciso se isolar e para se preservar é preciso se distanciar.

Cada dia ia nascendo desfazendo certezas e nos expondo à tamanha vulnerabilidade. No nosso grupo de mentoria, o conceito de Travessia Inteira da Teoria da Tensão passou a ser nosso único elo de comunicação. Sempre nos alimentávamos. Mais um dia, estamos em travessia. O amanhã passou a ser visto como hoje. Pouco se sabe mesmo que seja necessário caminhar. E, de repente, em diferentes partes do mundo, o dia começou a nascer. A noite ia chegando ao seu fim. Mas nada é normal. Quase tudo está na tensão entre o que existia e o que está sendo feito. Nada é 100% novo e nada é 100% velho. Nesse ponto, eu me lembro exatamente do texto que mandei para os pesquisadores do grupo na Europa que participariam do simpósio. Para atender a mudança veloz e a tensão exponencial antes dessa parada tensa, eu desenvolvi o Método Ganz (Ganze-Methode). Eu mostro os estágios de tomada de decisão dentro da Tensão Exponencial de Mudança da nossa época para preservar a vida em todas as suas faces. Eu só não imaginava que o jogo viraria para o Novo Tenso tão rápido. Eu me lembro do comentário do Dr. Stephen Carney da Roskilde University da Dinamarca ao comentar os estágios desse método.

Aqui eu preciso fazer uma consideração e aplicação da Teoria da Tensão para esse momento. Eu sugiro que seja feita uma mudança no uso da palavra “novo normal” para se referir a esse momento. Eu até entendo que a expressão está tentando explicar às pessoas os novos hábitos e os novos estilos de vida que deverão ser adotados daqui para frente. Porém, a expressão tem uma fragilidade porque, ao adotá-la, os meios de comunicação podem perder a chance de comunicar pedagogicamente à sociedade que esse novo deverá ser construído e que muitos não sabem muito bem ainda o caminho. A comunicação adequada ajudaria a não normalizar justamente o que é anormal. Aqui, no Brasil, por exemplo, antes dessa Parada Tensa, nós convivíamos com várias situações que eram anormais e já estavam normatizadas como normais. Um exemplo é o transporte público. Não pode ser normal as pessoas perderam entre 3 a 4 horas por dia da sua vida no transporte e ser tratada como animais conduzidos ao matadouro no caminho até o trabalho. Isso não pode ser normal! Não pode ser tratada como normal a condição anormal de saneamento, por exemplo, nas favelas. Não pode ser normal uma pessoa, com receio de perder seu emprego, ser obrigado a fazer constantemente 19 horas de trabalho em home office.

Por todas essas razões e por outras que não daria tempo de mostrar aqui, é que eu sugiro que usemos a expressão “Novo Tenso” ou “Novo em Tensão” para falar sobre esse novo tempo. A sociedade está tendo a chance de, pelo menos, debater, dialogar e conversar sobre o que não é normal. Essa Parada Tensa colocou luzes sobre muitas situações que violam condições básicas de bem-estar, sonho, felicidade, saúde, justiça, lazer, oportunidade e solidariedade. Mas como o olhar é pela Tensão, também descobrimos nessa Parada Tensa que a Solidariedade Inteira pode entrar como parte importante nas políticas públicas, nos planos de negócios e nas ações estratégicas das empresas, na forma de se construir uma Economia da Subsistência Inteira na comunidade local e na maneira de qualificar o Capital Inteiro: social, cultural, financeiro, humano, artístico e sustentável.  O “Novo Tenso” ajuda a entender que ainda estamos no caminho e, em cada situação, será necessário revisitar princípios fundamentais da vida para escolher se a ênfase estará mais no novo ou se estará mais no antigo. É por isso que é o “Novo em Tensão” de constantes mudanças exponenciais.

Dell Delambre, Dr. (CEO da WTS e Criador da Teoria da Tensão)