Lá no Morro dos Cabritos, em Alvorada, minha mãe, Rita de Cássia, vivia fazendo escolhas difíceis. Ou ela ficava em casa para nos proteger das ruas depois da escola, ou saía cedo para garantir o alimento do fim do dia. Uma mãe solo com seis filhos — e ainda os filhos que o coração adotou.
Muitas vezes, eu adormecia com fome. O sono chegava
antes da comida. E, quando acordava, o estômago doía. Nessas horas, eu ia até a vasilha de açúcar e comia o açúcar purinho, tentando adoçar a fome e enganar o vazio.
Na nossa rua, todos sabiam: eu era o líder da bagunça. Mas aquela bagunça tinha limites, porque lá no morro, todos educavam todos. Quando minha mãe chegava do trabalho, os vizinhos já tinham feito o relatório. E a disciplina, sempre firme, vinha junto com o amor.
Eu era um adolescente inquieto, por vezes violento. A vizinha Efigênia Maia me chamava com paciência e gastava horas me aconselhando, me falando de Jesus, tentando acalmar o fogo que ardia dentro de mim.
Também me lembro das vezes em que matei a fome nas casas da dona Solange, da Sol Reis, da dona Maria e do seu Carlinhos — pais da Gorete, do Dodó, do Peixe e outros. A dona Maria trabalhava num restaurante da antiga Acesita e trazia para casa as sobras. Para nós, aquelas sobras eram banquete.
Foi nesse tempo que eu e o Ronilson Cláudio nos tornamos grandes amigos. Eu contava pra ele das meninas que eu paquerava, ele me contava das aventuras dele. Ficávamos horas conversando. O pai dele, o seu Raimundo, sempre me servia café com pão e gastava tempo comigo — talvez esse gesto simples tenha sido o que me salvou de um destino trágico. Eu era um garoto com muita raiva e um buraco enorme deixado pela ausência do meu pai.
Minha mãe fazia o que podia. Era nossa heroína, embora eu não entendesse isso. Quando a violência dentro de mim cresceu, foi o futebol, os vizinhos, os amigos, os primos e meus irmãos que me ajudaram a atravessar aquele tempo sômbrio que fiquei muito violento.
Hoje, em cada palestra que faço pelo Brasil e pelo mundo, repito: se não fossem meus vizinhos do Morro dos Cabritos e a minha família, eu não estaria aqui.
Acredito, sinceramente, que minha vida é um milagre. Só um pequeno grande milagre explica como um menino pobre, que passou fome boa parte da infância, conseguiu fazer dois doutorados, um pós-doutorado, estudar na Alemanha, em Portugal, nos Estados Unidos — e ainda construir uma teoria publicada na Europa e um método que ajuda pessoas comuns, terapeutas, diretores e empresários a serem eles mesmos e não o que fizeram com eles no passado, um Eu-Forte.
Num tempo em que as notícias pesam e a esperança parece sumir da vista, talvez minha história te ofereça um fio de luz nessa Travessia.
Como costumo dizer aos meus alunos e mentorados do Método Travessia: escreva abaixo, a partir desse texto e da sua leitura, duas ou três razões pelas quais eu não tive um fim trágico na minha vida.
Bora, bora.
Dr. Dell Delambre
